Ser amoral é lucrativo

(Adaptado de comentários no Facebook)

A lógica é simples: ser amoral signifca que você não tem nenhuma restrição para fazer algo lucrativo, mas que é imoral ou anti-ético. Isso inclui ir de acordo com as leis: empresas normais, médias, vão de acordo com as leis porque é o caminho de menor risco e, logo, o de maior lucro esperado, já que ir contra as leis podem trazer sanções que causam prejuízo. No momento em que o lucro esperado de ir contra as leis valer o risco, empresas cujos donos têm compasso moral vão ficar atrás de empresas completamente amorais. E há várias situações onde isso pode ocorrer, pois uma empresa pode:

  • Realizar cobrança indevida ou prestação de serviço aquém do contratado, pois sabem que o volume de usuários que vão se dar ao trabalho de processá-la é ínfimo comparado ao número de usuários afetados — ou seja, lucro certo
  • Se sua empresa for grande o suficiente, você pode simplesmente corromper o sistema legal ao seu favor, seja comprando juízes, seja num esquema de corrupção gigantesco como esse. Esse caso das carnes foi simplesmente a empresa (melhor, os empresários) tomando o estado pra si, não o contrário. Outro exemplo é o de empresários e latifundiários que usam trabalho escravo e pagam toda uma bancada de deputados para aprovarem leis que relaxem as regulamentações de trabalho escravo.


Quando o objetivo principal é o lucro, todo o resto tende a se tornar secundário.

Além disso, uma empresa pode fazer toda uma orte de práticas anti-éticas sem necessariamente estar fora da lei. Por exemplo:

  • Obsolescência programada
  • Funcionalidades salame: “segurar” novas funcionalidades já disponíveis para justificar a compra de um produto mais novo
  • Propaganda enganosa

Isso só falando de abusos ao consumidor.

Empresas cujos donos têm algum senso de moralidade vão evitar isso e vão ficar para trás de empresas que são completamente amorais. Você não pode processar uma empresa que faz isso, pois não é crime (sim, propaganda enganosa explícita é crime, mas existe uma boa área cinza da qual ainda se pode tirar vantagem). Mas o consumidor ainda sai prejudicado e a empresa lucra com o prejuízo dos consumidores.

Uma resposta comum para esses problemas é que o livre-mercado se encarregaria de coibir esse tipo de prática e causaria inevitavelmente a melhora dos produtos e serviços, já que são os clientes que escolhem as empresas. Mas tem dois problemas com esse pensamento.

Boicote não é solução

Boicote não funciona. Ponto.

“Mas teve aquela vez-“

Não. Funciona. Dizer que boicote funciona porque “teve uma vez” é a mesma coisa de dizer que fumar não faz mal porque minha tia de 90 anos fumou a vida toda e não morreu. Existem alguns casos que talvez venha a funcionar para alguma empresa, mas não é um método que sistematicamente elimina a possibilidade de más práticas por empresas. Boicotar é melhor que nada, pois tem alguma chance que ele funcione, mas é só isso: melhor que nada.

Boicote não funciona por um monte de razões e uma delas é que não é muito difícil contornar um boicote. Se, por exemplo, a empresa fizer alguma “cagada” (que, na maioria das vezes, não é cagada porra nenhuma, é uma má prática premeditada com risco calculado), ela pode simplesmente dizer “olha gente, desculpa, fizemos uma coisa feia, blá, blá, vamos compensar fazendo <coisa que não custa nem um décimo do que lucramos com essa má prática>”. Resultado: aos olhos do consumidor, a empresa se redimiu e vai ficar até como exemplo de empresa que escuta o consumidor. E não é porque a população é idiota nem nada disso: é que, simplesmente, esse tipo de coisa é difícil de verificar, principalmente quando várias empresas em vários setores empregam várias más práticas (ou, no melhor dos casos, práticas questionáveis) o tempo inteiro e só corrigem quando são pegas.

Outro jeito de evadir boicotes é simplesmente criar (ou comprar) uma empresa com o objetivo de você fazer ela de boi de piranha, fazer um monte de merda, lucrar muito, embolsar o dinheiro e abrir outra empresa com o dinheiro que você ganhou. A empresa original fica com o nome destruído, mas você já tá em outra empresa, com um nome novo e limpo.

Por isso, no fim das contas, o boicote nunca traria um resultado real se fosse realizado em larga escala.

Livre-concorrência não, necessariamente, melhora produtos e serviços

A livre concorrência é uma corrida para lucrar e ficar no mercado, apenas. Vale tudo e o resto é secundário. Acreditar que, necessariamente, a livre concorrência vai melhorar a qualidade dos serviços é meio ingênuo: melhorar a qualidade dos produtos é _uma_ das maneiras de aumentar sua competitividade no mercado — seu produto melhora, mais pessoas vão comprar, você lucra mais, a ideia é simples.

Mas, como já foi mencionado, existem outras maneiras e práticas de aumentar a competitividade além de melhorar o produto ou serviço. Eu focarei no exemplo da obsolescência programada, pois ele é um exemplo perfeito de como não só melhorar a qualidade do produto pode não aumentar a competitividade, como, também, mostra que entregar um produto de PIOR qualidade o faz.

Pra quem não sabe, “obsolescência programada” é fazer um bem durável com uma data predeterminada de expiração. Pra deixar claro, isso não é simplesmente fazer um produto com materiais de má qualidade que vão quebrar logo, mas, simplesmente, projetar o produto de forma que ele vá ficar obsoleto daqui a 2 ou 3 anos, por exemplo. Isso é feito para forçar que o consumidor continue comprando o produto regularmente em vez de aproveitar ele ao máximo e só trocar quando realmente é necessário — em caso de quebra irreparável, por exemplo. Por exemplo, fabricantes de televisão perceberam que dar motivos para você trocar sua TV de três em três anos é melhor do que fazer uma televisão que durará 10 anos. Como isso é uma prática comum, hoje, todas as empresas de TV são forçadas a empregar essa prática.

E isso é só uma das muitas práticas que as empresas consideram antes de melhorar os serviços. No fim das contas, a corrida do livre mercado acaba gerando vários impactos negativos para o consumidor, para o trabalhador, para o ambiente e até para não envolvidos.

Então, não, a livre concorrência não garante a qualidade do produto porríssima nenhuma.

 

Como a corrida para o topo da pirâmide é extremamente acirrada, a tendência de empresas de sucesso serem completamente amorais é fortíssima e aumenta à medida que se sobe nela, pois, numa competição tete-a-tete, as vantagens que as más práticas mencionadas aqui trazem são cruciais para a vitória.

Não é que empresários, como pessoas, sejam escrotos sem alma e coração: eles apenas estão jogando o jogo.

Foda-se a mesóclise.

Por quê isso ainda existe? “Fá-lo-ei” é o caralho. Qual o problema com “farei-o”? Não há a menor necessidade de se cortar o verbo no meio.

(Achei esse post, que tava há um ano e meio sentado nos rascunhos. Achei que ia acrescentar mais algo, mas é só isso mesmo)

Desisti

Para consultas futuras, eu desisti do meu compromisso assumido de publicar coisas regularmente neste blog porque sim. Talvez ainda poste coisas que me venham à cabeça, mas não vou postar mais quaisquer merdas nas quartas e sábados.

É isso.